Mediação narrativa: conheça essa abordagem diferenciada

Se você é leitor assíduo do nosso blog, já sabe que a mediação é uma modalidade de resolução de conflitos extrajudicial, ou melhor, que não depende de um Tribunal de Justiça e de um juiz togado para deliberar sobre a lide. Boa parte das mediações costuma ser efetuadas em Câmaras de Mediação, sendo presididas pelo mediador, uma terceira pessoa que orienta os litigantes na escolha da melhor solução. Mas são as partes que resolvem o próprio caso, quando a mediação for bem-sucedida.

Em todo caso, existem alguns tipos diferentes de mediação, como a facilitadora, a avaliativa e a transformativa. Neste post, abordaremos uma espécie chamada mediação narrativa. Saiba mais sobre ela em seguida.

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O que é a mediação narrativa

Também é chamada de mediação narrativa circular ou Modelo Circular-Narrativo de Sara Cobb. Sua característica principal é que ela considera a história contada por cada parte na tentativa de reconstruir o fato a partir do ponto de vista de cada envolvido.

O mediador busca um sentido na construção da relação e comparação entre as histórias, procurando identificar a origem do conflito e suas possíveis soluções.

A importância das histórias

As histórias desempenham um importante papel na vida das pessoas. Todos têm uma história para contar, cada uma a seu modo — ainda que se trate de um mesmo fato.

Por isso, algumas pessoas dizem que a História é “matéria de mentirosos”. Isso porque todos têm sua forma de narrar, que nem sempre é compatível com a forma de narrar de outra pessoa.

Escutando histórias é possível também identificar irregularidades na narrativa de uma ou de ambas as partes em uma mediação, o que permite ao mediador dar um rumo mais eficaz e confiável ao processo.

A partir das histórias narradas, o mediador procura construir uma nova história, procurando novos significados naquilo que foi dito.

A causa imediata não é a mais importante

A mediação narrativa preocupa-se com a interdependência entre as partes que compõem o processo. Essa modalidade ressalta a importância de compreensão do outro, de suas peculiaridades e de seus interesses.

Nesse sentido, a causalidade não é imediata como acontece no modelo tradicional, de Harvard. Para que os envolvidos compreendam um ao outro por meio do diálogo, que é facilitado por uma terceira pessoa imparcial (o mediador), é necessário analisar as causas remotas que, de alguma forma, contribuíram para originar o problema — e não a causa imediata.

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O comportamento humano segundo a mediação narrativa

O modelo narrativo envolve elementos verbais relacionados ao conteúdo e também elementos paraverbais, como as expressões corporais e os gestos que tenham alguma ligação com o assunto.

Sustenta-se que o conflito não está associado ao antagonismo nas relações — ele está, na verdade, dentro de cada ser humano. O conflito é considerado, portanto, uma coisa diferente da disputa.

Para a mediação narrativa, o ser humano não é, por natureza, bom ou mau, pacífico ou agressivo, mas ele desenvolve esse comportamento.

A escuta dupla e a contra-história

No âmbito do Modelo Circular-Narrativo de Sara Cobb, dois conceitos precisam ser entendidos: o de escuta dupla e o de contra-história.

A escuta dupla tem como finalidade o desenvolvimento da escuta do conflito e da necessidade/vontade das partes. Ao praticar a escuta dupla, o mediador, portanto, também tem acesso à contra-história.

As partes, quando expõem a história do conflito, também falam sobre fatos que a confirmam. De forma paralela à narrativa dos envolvidos, é possível para o mediador identificar aquilo que não é colocado como figura central, mas como plano de fundo da narrativa.

Um exemplo disso é quando as partes contam as razões que as conduziram à mediação e o mediador indaga se elas alimentam algum tipo de esperança em relação ao processo, algum final satisfatório para o conflito.

A esperança, que não foi devidamente considerada na história contada, surge na contra-história, estimulada pelo mediador, contrastando com o desespero provocado pelo conflito.

Nesse sentido, a contra-história traz uma narrativa mais agradável, que abre novas perspectivas e permite opções de colaboração e confiança. Para que ela efetivamente funcione, é necessário que seja capaz de sustentar ações, com uma trama solidificada por experiências do passado que envolvem cooperação e solidariedade.

A contra-história procura contrapor uma trajetória de esperança e conforto a uma narrativa de desespero e frustração. Dessa forma, encaixa-se melhor naquilo que as pessoas desejam.

Os casos em que se aplica a mediação narrativa

A mediação narrativa pode ser aplicada em diferentes casos, inclusive se as partes aceitarem a modalidade. Os conflitos familiares, por exemplo, são uma boa opção para a aplicação desse tipo de mediação. Da mesma forma, acontece com os conflitos entre vizinhos e entre casais.

Em todos esses casos, a narrativa desempenha um papel fundamental. Não é à toa que a mídia procurar explorar esses casos, fazendo programas de auditório com a finalidade de solucionar diversos conflitos — ainda que de maneira sensacionalista, sem respeito à privacidade dos envolvidos. Esses programas fundamentam-se exatamente nas histórias que as partes contam.

A mediação do tipo narrativa pode solucionar dilemas e conflitos familiares diversos, problemas entre vizinhos, questões relacionadas à educação e à saúde (envolvendo, professores/alunos, diretores/professores, escolas/pais de alunos, médicos/pacientes, médicos/enfermeiras) e assim por diante.

Em todos esses casos, os conceitos de história e contra-história podem ser aplicados com ampla eficiência.

Os pontos fundamentais do Modelo Circular-Narrativo de Sarah Cobb

Resumindo tudo que dissemos até agora, vamos mostrar os nove pontos fundamentais em que se assenta a mediação do tipo narrativa:

  1. 1) O reconhecimento de que o ser humano vive sua existência por meio de histórias;

  2. 2) A ausência de afirmações existencialistas, como “Fulano é mau”, “Fulano é agressivo”, “Fulano é uma pessoa maravilhosa”;

  3. 3) A aplicação da escuta dupla, ou escuta dual;

  4. 4) A construção de conversas que ajudem a externalizar e separar os conflitos de cada pessoa;

  5. 5) A interpretação da história do conflito como uma restrição que impede as partes de seguirem adiante;

  6. 6) A escuta e a identificação do posicionamento das partes por meio de seus discursos, como um discurso machista ou religioso;

  7. 7) A identificação de possibilidades para uma história alternativa;

  8. 8) A reescrita da história do relacionamento entre as partes, considerando o passado da relação entre ambas;

  9. 9) A documentação do progresso da mediação, com uma narrativa na forma de ata, citando as partes, mas procurando não fazer julgamentos.

A mediação narrativa consiste em uma forma de mediação na qual predomina a busca por um novo significado nas histórias contadas, a fim de trazer boas expectativas aos envolvidos. E essa perspectiva pode ser incrível para a melhor visualização do panorama de cada um na questão que se busca resolver.

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Tags: mediação, mediação narrativa, tipos de mediação

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